Militâncias de Elis Regina e Gal Costa são corretamente dimensionadas em livro sobre posições das cantoras na ditadura | Blog do Mauro Ferreira


Título: Não se assuste, pessoa! – As personas políticas de Gal Costa e Elis Regina na ditadura militar

♪ Caetano Veloso desafinou o coro dos contentes com a performance esfuziante de Gal Costa no show Gal tropical, sucesso do verão carioca de 1979.

Ao vir da Bahia para o Rio de Janeiro mormente para ver o espetáculo arquitetado pelo produtor e empresário Guilherme Araújo (1936 – 2007), portanto no comando da curso de Gal, Caetano foi aos prantos cumprimentar a cantora no camarim do Teatro dos Quatro sem conseguir esboçar uma frase sequer.

Longe de ser fruto da emoção, o pranto compulsivo do artista foi provocado pelo desapontamento com o show incensado por público e críticos, porquê o próprio Caetano relatou a Gal em ulterior conversa privada.

Uma vez que a cantora logo entendeu, a recusa de Caetano era consequência da percepção de que o show Gal tropical remodelara a identidade de Gal para a grande volume, descontruindo a identidade artística dessa cantora que, tendo Caetano porquê guia, tinha sido a voz da contracultura no Brasil dos anos de chumbo.

Pouco sabido, esse incidente na relação de Gal e Caetano é narrado na página 74 do livro Não se assuste, pessoa! – As personas políticas de Gal Costa e Elis Regina na ditadura militar, lançado pela editora Letra e Voz neste mês de fevereiro de 2021.

Escrito pelo jornalista e sociólogo recifense Renato Contente, o livro é fruto de trabalho de mestrado desenvolvido pelo responsável em programa de pós-graduação da Universidade Federalista de Pernambuco para disciplina que contextualizava a MPB no contexto da ditadura instaurada no Brasil em 1964.

O original formato acadêmico do texto deu origem a uma narrativa surpreendentemente fluente que pode seduzir admiradores da MPB pelo recorte inusitado da abordagem. O responsável analisa e dimensiona corretamente os papéis políticos de duas das maiores cantoras do Brasil em todos os tempos.

Mesmo reconhecendo a valimento alcançada pela voz de Nara Leão (1942 – 1989) na luta contra a vexação, sobretudo no período que foi de 1964 a 1969, Contente optou por focar a narrativa nas atuações de Elis Regina (1945 – 1982) e Gal Costa no campus político da MPB.

Embora ousada, sobretudo pela escolha de Gal, cantora que se desvinculou da imagem de musa da contracultura a partir do (na era) incerto álbum Trovar (1974), a opção se justifica ao longo das 144 páginas do livro, tal qual título Não se assuste, pessoa! reproduz verso da música Dê um rolê (Moraes Moreira e Luiz Galvão, 1971), associada à temporada mais militante da curso de Gal.

O sucesso do livro decorre tanto do trabalho de pesquisa – muito fundamentado porque legitima o que está sendo escrito com o relato de fatos e a reprodução de trechos de entrevistas da era – porquê do conhecimento que Renato Contente demonstra ter sobre as trajetórias de Elis e Gal. Inexistem erros de informação no livro.

Sem se portar porquê fã das cantoras na construção da tese, o responsável situa com propriedade a força política de Gal e de Elis em momentos distintos da música brasileira. Desde que subiu no tribuna de festival de 1968 para tutorar Divino maravilhoso – parceria dos amigos Caetano Veloso e Gilberto Gil – Gal se tornou porta-voz de anseios políticos e sociais da geração tropicalista, marcando posição através da música, da voz gritada e do visual hippie.

Esse papel se intensificou a partir de 1969 com o exílio forçado de Caetano e Gil na Europa. Amparada no Brasil por nomes porquê Jards Macalé e Waly Salomão (1943 – 2003), mentor do cultuado show Gal a todo vapor (1971), Gal encarnou figura sensual de resistência à vexação. Um símbolo de liberdade, a ponto de a toga do álbum Índia (1973) ter sido vetada pela repreensão, que identificou o uso do corpo porquê instrumento político na imagem exposta no LP.

Proposta por Roberto Menescal, portanto diretor da gravadora Philips, a solução foi vender o LP embalado em plástico preto e/ou azul. O veto à toga do álbum Índia simbolizou o termo da militância (in)voluntária de Gal.

É quando Elis Regina, mordida pelo veste de ter sido enterrada viva em 1972 pelo cartunista Henfil (1944 – 1988) no semanário esquerdista O Pasquim, entra na guerra contra o regime militar a partir do tenso e denso álbum Elis, de 1973.

Portanto vista equivocadamente porquê voz simpática ao regime por ter sido obrigada a trovar o Hino Vernáculo Brasílio (Francisco Manuel da Silva, 1822, com letra de Osório Duque Estrada, 1909) em cerimônia solene de 1972 (em colaboração forçada também dada por outros artistas em cujos ombros não recaiu a cobrança feita a Elis, porquê muito ressalta Renato Contente), a cantora virou o jogo.

Não somente com a postura engajada de discos e shows porquê Falso refulgente (1975 / 1976), Transversal do tempo (1977 / 1978) e Saudade do Brasil (1980), todos detalhadamente analisados pelo responsável, mas também com a disposição de trovar de perdão em comícios de Fernando Henrique Cardoso e do portanto líder metalúrgico Luiz Inácio Lula da Silva.

Lula, a propósito, foi ao velório da cantora em janeiro de 1982, sepultando qualquer incerteza que ainda restasse sobre o posicionamento político de Elis Regina Roble Costa, cantora musicalmente conservadora nos anos 1960 e de início refratária às liberdades tropicalistas.

Se Elis se eternizou porquê cantora imortal, Gal continuou em cena e, por isso, Renato Contente faz breve retrospecto da trajetória profissional da cantora baiana até os anos 2010 – veste que valoriza o livro pelo veste de ainda inexistir uma biografia de Maria da Perdão Costa Penna Burgos.

Mesmo sem amplificar fatos inéditos ao que já se publicou sobre as cantoras, o livro Não se assuste, pessoa! – As personas políticas de Gal Costa e Elis Regina na ditadura militar cumpre muito o objetivo de investigar e dimensionar as militâncias artísticas dessas duas vozes referenciais da música brasileira.



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