Miguel Proença cai. E a Funarte, para onde vai? | João Supremo


Durou o tempo de uma prenhez, de fevereiro a novembro, a surpreendente passagem de Miguel Proença pela presidência da Instauração Pátrio das Artes (Funarte). Surpreendente do primícias ao término. Do primícias, por ninguém ter entendido muito porque um pianista da estatura dele foi parar numa instituição que há muito já não se interessa tanto por cultura, em universal, e por música, em privativo. Ao término, porque só especulando se pode chegar à culpa de sua exoneração assinada pelo ministro da Vivenda Social, Onix Lorenzoni.

Evidente, a culpa deve ter caráter ideológico, apesar de uma das bandeiras de nossos atuais governos seja justamente a da luta contra tudo que entendem por “ideologia”. No caso de Proença, seu erro seria o de pensar, de alguma forma, dissemelhante de homens supra dele (por exemplo, o ministro da Cidadania, Osmar Terreno) ou um pouco aquém (por exemplo, o diretor das Artes Cênicas da Funarte, Roberto Alvim).

Proença não gostou de ver Alvim investindo contra todo o teatro brasílio ao convocar artistas conservadores a participarem de uma guerra (o termo “guerra” é dele) contra o que entende por “marxismo cultural”. Ou seja, um teatro de esquerda. O pianista presidente gostou menos ainda, a ponto de se proferir chocado, quando Alvim insultou Fernanda Montenegro, às vésperas de ela comemorar seus 90 anos.

Consta que Proença foi até Terreno para pedir providências contra o subalterno cuja ofensa à nossa grande atriz era secção do que ele, Alvim, labareda...

de luta semelhante à das Cruzadas, “na medida em que os guerreiros cristãos lutaram no pretérito para impedir a ruína de nossa cultura por invasões muçulmanas”. Trazendo para os nossos dias, a guerra seria da cultura judaico-cristã contra o progressismo cultural.

A providência do ministro foi livrar 19 funcionários das Artes Cênicas da Funarte, sem consultar Proença ou, pelo que se sabe, sem ouvir Alvim. Voltou detrás. Agiu da mesma forma impensada com que ele, comandados e comandante, agem para em seguida tentarem desfazer os nós.

A Funarte não vai melhorar nem piorar com a saída de Proença. Zero vai mudar com a presidência nas mãos do diretor executivo Leônidas de Oliveira. Nem de alguém que venha a substituí-lo. O problema da Funarte é que, ao longo dos anos, ela foi desistindo do papel importante que teve no pretérito. Era, ao lado do Museu da Imagem e do Som e de poucos mais, um atuante meio cultural, editando livros, promovendo cursos e congressos, instituindo prêmios, levando música e teatro aos pontos mais distantes do país.

É verdade que a Funarte começou a desistir quando as verbas oficiais foram ficando a cada dia mais minguadas. Mas também é verdade, e mais triste, saber que ela continua empenhada em desistir de vez, quanto mais se faz desinteressada, preconceituosa, irresponsável, desinteligente, em nome da política cultural –– esta sim, ideológica –– adotada por cá há quase um ano.



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