Gal Costa canta Dorival Caymmi com Silva em single que depura e dilui emoções do samba-canção ‘Só louco’ | Blog do Mauro Ferreira


Artistas: Gal Costa e Silva

Compositores: Dorival Caymmi

♪ Voz músico da sensual Gabriela, mítica personagem do jornalista Jorge Estremecido (1912 – 2001), a verdadeira baiana Gal Costa também tem o esquina plural associado ao cancioneiro do conterrâneo Dorival Caymmi (1914 – 2008) – inclusive por ter lançado, há 45 anos, álbum somente com músicas do compositor baiano.

Foi neste álbum Gal canta Caymmi (1976) que a cantora deu voz pela primeira vez ao samba-canção Só louco (1955). A gravação dessa música sobressaiu no disco por ter sido escolhida para ser o tema de início da romance O casarão (TV Mundo, 1976).

Por isso mesmo associada ao esquina de Gal, a música Só louco faz segmento da progressista safra de sambas-canção compostos e lançados por Caymmi a partir da segunda metade dos anos 1940 com fidelidade à natureza geralmente melancólica do gênero, mas com o melodrama depurado pelos suaves traços modernistas da obra do compositor.

O expurgo da dramaticidade no samba-canção de Caymmi favorece Silva, convidado de Gal Costa na regravação de Só louco feita para o álbum rememorativo dos 75 anos da cantora, idealizado por Marcus Preto e programado pela gravadora Biscoito Fino para ser lançado em CD em 12 de fevereiro.

Apresentado em single nesta sexta-feira, 22 de janeiro, o dueto de Gal e Silva expõe a depuração das emoções em Só louco, mas também dilui segmento delas pela imaturidade do cantor.

Ao longo dos quase quatro minutos da gravação, os artistas se alternam e se unem no esquina dos versos do samba-canção de Caymmi, sendo que a voz de Silva soa esmaecida no single, cuja produção músico é assinada pelo artista com Felipe Pacheco Ventura.


data-track-category="Link no Texto" data-track-links=""> O maquinação de Ventura peca pelo excesso de violinos e violas (a rigor, dispensáveis na gravação), mas é valorizado pelo toque do violão que provoca a sensação de que Gal e Silva cantam Só louco à praia, com certa bossa. A marcação suave da bateria e da percussão de Gabriel Vaz potencializa leveza quebrada justamente pela mediação das cordas.

Mesmo sem fazer frente a tantos marcantes registros fonográficos de Só louco (uma vez que a gravação original do próprio Caymmi em 1955, a leitura da própria Gal em 1976 e a abordagem feita por Nana Caymmi com Wagner Tiso em álbum gravado em 1989 em show no Montreux Jazz Festival, para referir somente três gravações do samba-canção), o single do álbum Gal 75 cumpre com distinção a função de reconectar Gal com Silva, parceiro do poeta Omar Salomão em Palavras no corpo (2018), uma das melhores músicas do último álbum de inéditas da cantora, A pele do porvir (2018).

Trovar Caymmi exige maturidade e tarimba para atingir o ponto exato da tradução, para evitar que se esvaia o sentimento depurado no samba-canção. No single Só louco, Gal depura a emoção que se esvai na voz de Silva.



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