Quina de Claudia Netto ilumina encenação de ‘Brasiliano, profissão: esperança’ com Claudio Botelho | Blog do Mauro Ferreira


Resenha de músico de teatro

Título: Brasiliano, profissão: esperança

Artistas: Claudia Netto e Claudio Botelho

Direção: Charles Möeller & Claudio Botelho

Direção músico e arranjos: Thiago Trajano

Sítio: Teatro Clara Nunes (Rio de Janeiro, RJ)

Data: 13 de agosto de 2021

♪ Espetáculo em edital aos sábados e domingos, às 19h, até 5 de setembro de 2021.

♪ Ouvido na rombo da atual versão do espetáculo Brasiliano, profissão: esperança, o esquina inicialmente a capella de Ternura antiga (Ribamar e Dolores Duran, 1960) ilumina a cena com a voz límpida de Claudia Netto.

A performance da cantora é a labareda que mantém acesa o interesse do testemunha pela adaptação do músico – a rigor, um show teatralizado – pela dupla formada pelos diretores Charles Möeller e Claudio Botelho.

Encenado pela primeira vez em 1970 sob direção de Bibi Ferreira (1922 – 2019), em montagem que não se impôs nas trajetórias do ator Ítalo Rossi (1931 – 2011) e da cantora Maria Bethânia pelos palcos brasileiros, o espetáculo marcou de vestimenta idade quando foi refeito em 1974, sob direção da mesma Bibi, com o ator Paulo Gracindo (1911 – 1995) e a cantora Clara Nunes (1942 – 1983), tendo inclusive sido perpetuado em disco.

Embora o texto do dramaturgo Paulo Pontes (1940 – 1976) contenha trechos datados, sobretudo o final prudentemente suprimido por Möeller & Botelho, Brasiliano, profissão: esperança sempre se sustentou pela reunião dos irretocáveis cancioneiros dos compositores Antônio Maria (17 de março de 1921 – 15 de outubro de 1964) e Dolores Duran (7 de junho de 1930 – 24 de outubro de 1959), sendo Maria também o responsável de algumas crônicas inseridas no texto.

É a música do espetáculo, convenientemente arranjada pelo violonista e guitarrista Thiago Trajano sem inventar tendência, que valoriza a montagem erguida sem o habitual padrão estético da dupla Möeller & Botelho (na segmento visual) por contingências do difícil momento social.

O luxo está no repertório de cume quilate e no esquina preciso de Claudia...

Netto, hábil tanto ao encarar standard jazzístico do porte da balada Cry me a river (Arthur Hamilton, 1953) quanto o folhetim de Vasa (Paulo Marques e Aylce Chaves, 1952), melodrama músico típico dos anos 1950, dez áurea das trajetórias de Antônio Maria e Dolores Duran.

Botelho alcança bom momento ao dominar o linguagem de Cheek to cheek (Irving Berlin, 1935), número em inglês que ilustra a habilidade que Dolores tinha para dar voz a repertório poliglota em discos, shows e/ou reuniões com amigos.

Com fragmentos do roteiro original do espetáculo, a adaptação se escora na formosura perene de canções de Dolores – porquê resistir à melodia de Lição (1958), ainda que a letra retrate machismo inadmissível em 2021? – e se encerra com a parceria póstuma da compositora com Carlos Lyra, O negócio é amar (1984), veículo ideal para gracioso dueto.

No bis (e o vestimenta de ter um bis corrobora o vestimenta de se tratar mais de show do que de músico de teatro), o roteiro avança com liberdade poética e músico pelo repertório da peça Pinga d’chuva (1975), momento histórico da curso de Bibi Ferreira, atriz e cantora que remontou Brasiliano, profissão: esperança em 1998 com o ator Gracindo Júnior, fruto de Paulo Gracindo.

Enquanto a pandemia inviabiliza a encenação de grandes musicais para plateias numerosas, especialidade da dupla Möeller & Botelho, o revival de Brasiliano, profissão: esperança reitera a afinidade cênica entre Claudia Netto e Claudio Botelho, afinados parceiros teatrais há 30 anos.



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